Questão das pessoas..

Questão das pessoas

(Este texto foi escrito em agosto de 2006, e contou com grande ajuda do Paulo Costa. Porém, ele nunca foi publicado. E, lendo ele agora, não tive como não reparar que as coisas que ele fala tornam-se cada vez mais e mais reais a cada dia.. Acredito que é um texto digno do camelo da sibéria)

Qualquer pessoa que têm observando o desenvolvimento da TI e Internet em geral chega a conclusão de que as coisa tornam-se piores ano após ano. Será que é somente a diferença entre um copo-meio-cheio e um copo meio-vazio? Pode ser. Mas em todo caso, não da para negar que existe uma série de tendências negativas que tem algo em comum — “aparentemente”, elas são odiadas por todos; “aparentemente”, todas elas vão desaparecer da face da terra — mas, enquanto isso, elas continuam ganhando forças, criando novos problemas e atrapalhando a vida das pessoas “comuns” (?).

Por exemplo, o copyright.. Como será que ele se transformou de um “meio de proteção dos direitos naturais do autor” em.. em.. em alguma coisa que não da nem para definir hoje em dia. A RIAA (sindicato dos produtores de audio), MPAA (sindicato cinematografico), e todas as outras “AA”s, não param por nada, tendo como o objetivo final mostrar o seu ponto de vista — o único ponto de visto certo de acordo com eles, para o mundo. Ponto de vista absurdo, alias, porque de acordo com ele as pessoas “boas” são aquelas que escutam músicas compradas a noite, sozinhos, escondidos embaixo do cobertor e no máximo uma vez por mês (para não infringir os direitos digitais, escondidos por trás da sigla DRM). E, enquanto isso, pessoas “ruins” são todas as outras — e elas devem ser caçadas e processados. Se você fala que “a arte deve ser livre” — você é um ladrão. Se você diz “quero ter a possibilidade de escutar a música que eu comprei em qualquer dispositivo” — você é um criminoso. Se você é um especialista de criptografia, programação ou avaliação de segurança — você no mínimo deve ser preso para não poder avaliar as medidas de segurança porque — vai que! — você acha uma falha de segurança no DRM versão 1.2.3, que deixa qualquer pessoa que comprou a música escutá-la no seu carro, sem pagar mais. Não é crime isso??

Ou, um outro exemplo — as grandes campanhas de marketing, filhos e filhas de corporações internacionais. Sempre tentando conseguir um market-share maior, aparecer na mídia como os únicos e melhores — e, ao mesmo tempo, mostrar que os seus concorrentes são burros e incompetentes. O que vai sobrar disso para os nossos descendentes? Lendo do século 22 as campanhas de marketing, a propaganda e os press-releases que vemos todos os dias — que imagem os nossos filhos terão da nossa geração?

Mais um exemplo — não é óbvio para toda pessoa, formada em MBA e com vasta experiência de trabalho em empresas internacionais, que o fenômeno de OpenSource está destinado a falência? Como é possível que um grupo de pessoas, que freqüentemente nem se conhecem pessoalmente, possa desenvolver e melhorar software e não ganhar absolutamente nada com isso? Isso vai contra todas as regras de marketing, business administration — enfim, contra tudo! Porém, esse movimento existe.

Hoje em dia praticamente todas as idéias dos romances de cyber-punk se tornaram realidade — o mundo é dominado pelas grandes corporações internacionais (microsoft, google, ibm); os interesses dos países são ajustados para não prejudicar essas corporações, que pagam metade dos salários dos políticos; as pessoas são contadas e precisam obrigatoriamente usar identificação digital (passaportes biométricos). E - é obvio - se você não concorda com isso, você é um criminoso.

O que temos com isso hoje em dias? Praticamente todas as áreas tem dois grandes exércitos — RIAA contra tecnologias peer-to-peer e seus usuários; grandes corporações contra sites, tecnologias e empresas independentes; aplicações com código fechado contra OpenSource, e assim infinitamente. É um verdadeiro campo de batalha — alias, quem nunca escutou frase do tipo “é só a gente prender (matar, desligar, comprar) ELES, que tudo vai ficar bem”?? Essa frase dá para encaixar em qualquer dos lados de qualquer uma das batalhas.

Porém, existe algo que muita gente ainda não pensou. Essa batalha não é de um exercito contra outro; é batalha de pessoas com um ponto de vista contra pessoas que pensam diferente. Isso é verdade para a questão de opensource, é verdade para questão de RIAA vs P2P — é verdade para tudo. Quem são esses malditos “ELES” que atrapalham os nossos negócios e nossos lucros? São pessoas também..

Vendo o assunto por esse lado, as coisas tornam-se diferentes. Uma pessoa pode fazer qualquer coisa — seja essa coisa a prova de um teorema fundamental de matemática ou decisão de fazer o planeta Plutão desaparecer. Uma pessoa pode ser diferente — um programador genial pode ser uma pessoa completamente impossível de se conversar. Um político que diz que só pensa no povo pode não querer doar um real para um mendigo na rua, e assim por diante..

Pensando em grandes batalhas, movimentos pró-algo ou contra-algo, nós esquecemos de que esses movimentos não são compostos por idéias abstratas — não, eles são compostos por pessoas! E, com isso, qualquer linha divisora entre NÓS e ELES torna-se completamente subjetiva e inútil. Porque? Porque, dividindo as pessoas em NÓS e ELES, nós esquecemos que qualquer pessoa que está entre NÓS pode-se juntar a ELES em todo momento, e vice-versa.

Aonde eu quero chegar? Bem, é possível ver que não haverá nenhuma vitória de todas as pessoas “boas” sobre todas as pessoas “ruins”, qualquer que seja o assunto em questão. Essa vitória somente será possível quando passarmos a pensar não em VENCER “ELES” mas em fazer com que ELES se juntem a NÓS. Porque ELES são pessoas também.

Eugeni